Para não escrever sobre sentimentos, ela decide falar sobre roupas e tecidos.
Saias de algodão são tão mais sinceras do que as de viscolycra, que balançam ao vento, mas desvirtuam o formato do corpo. Algodão tem forma definida, denuncia as intenções reais. A textura macia quando passada bem de levinho na pele, dá “gastura”. Enquanto roupa colada sufoca e mostra mais do que deveria. Combinadas com mangas ¾, viram extensão dos (a)braços curtos.
Sabe que tipo de pano cai melhor no corpo, mas poxa! como cetim reluz de longe. É adepta dos padrões. Xadrez tweedy, príncipe de gales, pied-de-poile. Pode estar fora de moda, mas ela insiste em usar, porque a estampa confunde os olhos de quem vê e ela se lembra de que mesmo a repetição do banal é capaz de trazer o novo. E pra terminar: Liberty. Sim, são só estampas miúdas, mas que unidas, viram um campo florido. Vendo de longe é só uma menina num vestido. De perto, é o infinito em texturas.
Gosto do que as pessoas enxergam em mim sem que eu diga. Hoje meu professor de canto veio com uma música nova, que segundo ele, é a minha cara:Drive my car. Ele não sabe nada da minha vida e não teria como saber que eu estou numa fase totalmente Paul McCartney e que dias antes o B cantarolava pra mim "Baby you can drive my car/ you know I'm gonna be a star". E pra ser sincera, eu também não sabia que música era essa até pouco tempo atrás. O engraçado é que estou numa fase em que The Beatles me fazem sentido em tudo. Nas letras, na feiúra engraçada do Ringo, nas piadinhas inocentes do George, na ingenuidade bonita mascarada de pretensão do John e no otimismo do Paul. Principalmente no otimismo do Paul.
Don't let me down
Don't let me down
Don't let me down
Don't let me down
Eu sempre achei que eu era pessimista. Quando era adolescente e parece incrível, mais isto já faz mais de dez anos, estava na moda ser pessimista. Só pode ser por isso. Porque quando eu penso em toda a minha vida, eu vejo que sempre fui uma criança otimista. Sempre achava que se o dia anterior tinha sido ruim, bastava dormir e no dia seguinte tudo seria melhor. Mas foi na adolescência que tudo ficou borrado. Acho que intensificava o drama e todos aqueles pensamentos que só fazem sentido quando você ainda recebe mesada e acha punk rock a melhor música do mundo. É, é só pensar que nada vai dar certo na vida, porque assim você se sente menos culpado se não passar no vestibular, não arrumar um emprego...
You say you want a revolution
Well, you know
We all want to change the world.
Hoje eu não acho mais cafona ser otimista. Gosto de ter a certeza que o dia seguinte vai ser bom, que eu vou melhorar e entender melhor o dia que passou quando ele tiver acabado. Hoje por exemplo, foi uma merda. Não dormi outra vez e os cochilos foram sonhos ruins. Acordei me sentindo desanimada como há tempos não sentia. No ônibus, encontrei com a moça cadeirante que ajudo quase todos os dias a atravessar a rua e ela discutia com o cobrador. Ele estava reclamando pelo fato de ter que levantar a cadeira dela pela escada, já que não era um ônibus adaptado para deficientes. Irritada, ela engrossou com o sujeito e ele, emburrado, baixou o tom e ficou dando justificativas engraçadinhas para amenizar a sacanagem que tinha dito. Mentirinhas pra si mesmo pra não parecer mais idiota do que já estava parecendo diante de todos os passageiros. Quando descemos do ônibus, a moça comentou da grosseria do cobrador, mas logo esqueceu e começamos a falar sobre a cor do esmalte que ela usava. Verde. Demos risada e isso mudou meu humor. Resolvi dar uma chance do dia ser diferente e me esforcei (like hell) pra que não caísse na zona de conforto da tristeza. Melhorou.
And don't you know that it's just you.
Hey Jude, you'll do,
The movement you need is on your shoulder.
Você acredita que pode mudar algo em você que te acompanha há muito tempo? Eu não acredito muito. Acho que a gente se engana pra agradar aqui ou ali, mas no fundo tudo continua remoendo por baixo da roupa. Só acredito em uma coisa: esforço. Mudanças radicais são mentirosas. O que funciona pra mim é o dormir num dia e acordar melhor no outro, que eu te dizia ali em cima, sabe? É o tentar ser melhor. Mas não o melhor-campeão, só o melhor-mais-feliz. (E eu não era feliz sendo a menina difícil sempre ).
Take a sad song and make it better,
Remember to let her under your skin,
Then you'll begin to make it all better, better, better, better...
Eu ainda me divirto pouco, ainda preciso ficar me lembrando do que não posso esquecer, me cobro, me culpo, me sinto só, me entristeço pra caramba (e por nada)...mas isso faz parte do meu esforço. E tudo bem. Amanhã estou sempre melhor.
Ontem eu dirigi depois de um ano. Fui quase até a Paulista. Quase. Porque me desesperei quando troquei a terceira pela primeira marcha e acabei tendo que parar num posto de gasolina. Ainda assim, fiquei muito satisfeita. Quem me conhece sabe que eu andava com um bloqueio sério em sentar no banco do motorista. E mais: ontem chovia em sp. Ou seja! It was a big deal! Ir ao cinema eu mesmo dirigindo foi um luxo de começo de ano.
Outro grande passo foi voltar a escrever aqui. Não, não tive nenhum grande trauma, mas eu desanimo quando percebo que tudo que escrevo são sempre reclamações pessoais. E entre ficar discorrendo tonterias egocêntricas e ler um livro ou fazer as unhas, eu prefiro a segunda opção menos neurótica.
Só que sinto falta sim de escrever. E de nadar. E de correr. E assim, item por item vou tentar resolver tudo com menos histeria possível. Menos cumprir a lista e mais aproveitar o que gosto. (Tudo que é mais simples é muito mais complicado, né? Como bater claras em neve. São só claras de ovo. Se você bate no tempo certo, vira uma linda neve fofa. Se você passa do ponto, viram suspiro. E eu tenho suspirado muito.)
De volta, sem pressa, mas com mais frequência. É tudo que posso dizer por enquanto.