Cabbage DeNiro me faz gargalhar alto
Há 20 anos atrás, acordei cedo e feliz. Coloquei meu vestido preferido e dancei a música que mais gostava. Brinquei com a máquina de escrever da minha tia e comi bolo de chocolate. Minha mãe me abraçou e disse que eu já era uma mocinha.

Hoje acordei cedo e feliz. Coloquei meu vestido preferido e cantei a música que mais gosto. Vim trabalhar no feriado e comi bolo de chocolate. Minha mãe me abraçou e disse que eu era a menininha dela de sempre.
Às vezes esqueço que o dia de hoje é só prolongamento do de ontem. Penso que vou mudar daqui a 10 anos e me pego surpresa com pensamentos como “nossa, eu ainda gosto disso, depois de tanto tempo!”, como se envelhecer fosse abandonar o passado. E fico inutilmente me comparando a quem eu fui, como se fosse outra pessoa, como se fosse obrigada a mudar, só porque estou envelhecendo. É tudo a mesma coisa. E não precisa ser diferente. As mudanças vão vir sim, muitas, mas é tudo continuação. Novidade é abrir os olhos toda manhã.
Hoje, completando 25 anos, assopro as velinhas fazendo um desejo só: estar atenta.
Porque é tanto pra ver.
Custa o que correr / Corre o que custar
Não pensa muito...aposto que sai muito melhor. Escreve sobre as suas memórias que não te deixam dormir. Ou então, que tal sobre aquele medinho da sombra que fica no canto quando você desliga o abajur? Não? Infantil demais? Ok, fala sobre a frustração de andar em linha reta, mas com aquela vontade de correr em zigue-zague. Mais do mesmo, sei...
É...O jeito é sentar no chão do quarto outra vez e tirar todas as gavetas pra fora do armário. Uma por uma, você desdobra e dobra outra vez nas mesmas marcas, só pra ter certeza de que está tudo alinhado. Aquela camiseta velha de banda vai ficar no fundo da gaveta, que é para não correr o risco de você jogar fora num momento de revolta com o passado e depois se arrepender. Os vestidos novos ficam penduradinhos como troféus e as calcinhas são ordenadas por tamanho. Os casacos de frio empacotados na última gaveta, para quando precisar. Os sapatos alinhados dos mais bonitos e novos para os tênis velhos e desbotados que você não usa nunca. Fecha os armários, agora, e esquece.
Eu sei, você nunca esquece. Nada, nunca. A não ser as chaves e os óculos. Memórias corrosivas as suas. Daquelas que você gosta de rever, recontar e descobrir detalhes escondidos, como quem assiste pela milésima vez De volta para o futuro quando passa na sessão da tarde. “Minhas lembranças são quem eu sou”. Pára de se defender. É fácil se abrigar no conhecido quando se tem que enfrentar o novo, sair da sua casa. Sim, sair de casa mais uma vez. Quantas vezes serão necessárias? Quando vai chegar? Vai chegar? Precisa chegar?
Logo, logo, calma, calma. E não quero ser cruel, mas não espere que as aflições passem com o tempo. Certos medos , como aquele de abrir os olhos no banho e ver um fantasma, não passam nunca. Perseguem a gente até o fim. Mas é preciso saber conviver com o que você não consegue explicar. E explicar, explicar, explicar é um vício.
Quando eu passo no cemitério da Consolação, penso sobre nós. Eu, você, ele, todo mundo. E me lembro daquela musiquinha que você gosta de cantarolar: “Como se morrer/ Fosse desaguar...”. E o rio corre, Alice, cada vez mais cheio.
No restante é aquela mesma ladainha: Todos os dias ao entrar no ônibus, faça o acordo mental com o motorista: olha, a R$2,30, eu te entrego a minha vida. Sim, porque convenhamos, se ele quiser bater de frente no poste, quem vai impedí-lo? No fim, é de compactuar com a vida. Porque algumas revoluções são batalha ganha e sabe, você não é a vencedora da vez (mesmo se esforçando tanto tanto). Inocência pensar que dá para chegar até lá inteira. O que vai perder pelo caminho, compensa? Hoje quero pensar que não. Amanhã você me diz.
Tempo a gente tem/ Quanto a gente dá/Corre o que correr/Custa o que custar/Tempo a gente dá/Quanto a gente tem/Custa o que correr/Corre o que custar/O tempo que eu perdi/Só agora eu sei/Aprender a dar/Foi o que ganhei
(Little Joy- Evaporar)
O curso acabou e tanta coisa ficou. Fui em busca de bagagem e voltei com malas cheias e armários para arrumar. Novas gavetas. Mas é tanta coisa pra contar, que agora, prefiro só dizer que estou bem.
No domingo, você me disse sobre aquela música que tem a ver comigo e eu fui procurar a letra. E é...tem razão, respirar. Com calma.
These days are better than that
These days are better than that...
Every day I die again, and again I'm reborn
Every day I have to find the courage
to walk down into the street with arms out
Got a love you can’t defeat
neither down or out
there's nothing you have that I need
I can breath
Breathe now